quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O medo longe de ti


"Catarina, se eu pudesse dar-te apenas mais um presente, seria não deixar que o medo te impedisse de seres feliz.
Sim, o medo. Quero falar-te do teu pai, do jovem escritor que conheci quando tinha a tua idade. O jovem escritor, como lhe chamava a professora de Alemão que organizou este pequeno livro de histórias, o jovem escritor que habitava um mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies.
Na verdade, ele ainda o habita, como se percebe por aquilo que escreve. Várias vezes, ao longo destes anos, me perguntei se o teu pai foi mesmo o grande amor da minha vida. Tenta compreender-me: aquilo que nos ensinam desde criança, a verdade de um grande amor, maior do que tudo, o verdadeiro amor, capaz de tudo vencer.
Eu não sei, e possivelmente nunca o soube. Ou nunca acreditei nesse heroísmo do amor.
O amor verdadeiro?
Tantas vezes me perguntei se não seriam verdadeiros todos os amores.... O teu pai abria-me os portões altos e dourados do seu mundo de bruma e de sol, de florestas cerradas e de vastas planícies. E levava-me pela mão entre seres por vezes tão estranhos e tão assustadores, muitos deles com marcas indeléveis de obsessão... Eu amava o jovem escritor, o teu pai.
Hoje tenho a certeza disso.
Há certezas, assim como esta, que podem demorar anos até serem encontradas.
Quase duas dezenas de anos, se calhar. Mas o teu pai não esperou por mim na estação dos comboios como tinha prometido.
Não estava à minha espera quando regressei de uma viagem ao Norte da Alemanha, da primeira visita à tua avó desde que estava a estudar na Floresta Negra.
Apenas um fim-de-semana fora, e o jovem escritor fugiu....
Será que me entendes?
Compreender-me-ás e perdoar-me-ás se eu te disser que depois de o teu pai abandonar o programa onde estudávamos os dois eu acabei por não o querer procurar?
Que escolhi sair daquele mundo fantástico para to poder oferecer verdadeiramente agora, tão fascinante como quando o conheci, o jovem escritor, no interior intocado do seu mundo dos portões dourados?
Porque tu, tenho a certeza, saberás entrar nesse mundo e reconhecer cada um dos seres que o habitavam.
Talvez até tratá-los pelo nome. Tu saberás como pisar esse chão. Sem medo. "

António Manuel Venda, in O Medo Longe De Ti

6 comentários:

Edu disse...

Andas a ler umas coisas...
Olha até estava era a tentar arranjar o nosso, mas ta complicado aquilo, quando vi , tavas a sair.
bjinho e vai dando noticias.

Bia Firpo disse...

Saudades de ti!

Moonlight disse...

Edu,meu amigo andamos mesmo desencontrados hoje!!!Loool
Que importa mais logo ou amanha falamos.
O nosso blog está fantastico pelo que vi adorei!!!!!!!
Vou lá por uma musica bem fixe!!!!!!!!!!

Bjinho enorme

Pensador disse...

Triste é o medo de amar...
Triste é fugir da própria vida e felicidade, por medo...
Mais triste ainda, neste caso, deixar de conhecer aquela que poderia ser a realização do mundoi fantástico dele. Por medo.
Que possamos todos expulsar de nossas vidas o medo de amar. E de lutar por estar com quem amamos.
Um beijo, querida Moonlight. E um longo uivo!

Vento disse...

Fecho os olhos
sinto...
Consigo ver
são assim as tuas histórias.

Beijo

Spiritual disse...

Um estado de amor para com a vida torna verdadeiros todos os amores... cada um à sua maneira e cada um no seu devido lugar... ;) Mas pessoalmente levo sempre tudo até ao fim... não sou grandemente fã de contos de fadas, acho que as histórias têm graça tal e qual como são, com as coisas boas e as coisas más!! Faz parte!! :D

Felicidades!